quarta-feira, novembro 08, 2006

Não se excite

Na caixa de comentários ao post anterior surgiram duas reacções, uma razoável e outra um bocado imbecil.
O comentário razoável foi do Nelson, que procurou contextualizar as palavras de Sócrates, desvalorizando-as. Caro Nelson, não sei a que parte do debate assististe, muito menos consigo identificar o contexto que referes. Aquilo a que eu assisti com relativa desatenção (o som da TV como pano de fundo no trabalho) foi o seguinte: um deputado, creio que do PCP, fez uma intervenção. Sócrates, interpelado, tomou depois a palavra e a primeira coisa que disse foi "Não percebo a excitação do senhor deputado". Depois, repetiu diversas vezes. " "Não se excite, senhor deputado, não se excite". Não estou a falar de uma peça montada para os telejornais, Nelson, refiro-me ao debate em directo, versão uncut.
O(s) comentário(s) que julgo ser algo imbecil veio de um anónimo. Trouxe-nos ao RdM a clarividência de quem consulta dicionários, precisando que "excitar-se" significa exaltar-se, irritar-se. Obrigado, anónimo, pelo importante contributo para a questão.
Ora bem: o primeiro ministro, nas primeiras palavras da reacção a uma intervenção de um deputado, diz que ele se exaltou, irritou. Bom, o que diz mesmo é que o deputado se excitou. Com este fino pormenor de retórica, apouca a intervenção, diminui o discernimento do deputado, reduz a intervenção a um questão de "perturbação emocional". Baixa o discurso para patamares inferiores, vulgares, rascas, tornando-lhe estranho qualquer debate político produtivo, para o qual o deputado foi mandatado pelos portugueses. De fora, fica a elegância que se espera de um primeiro ministro. Sobra o "momento TV".
Eu quero mais da Assembleia da República. Quero, desde logo, que seja respeitada pelos membros do governo e que se constitua como centro da democracia portuguesa.
O primero ministro tem a obrigação de responder à interpelação de um deputado com elevação e espírito democrático. Reduzi-la liminarmente ao tom, a um certo estado de alma, assim a desvalorizando, não denota respeito. Fosse eu deputado.

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8 ComentÁrios:

Anonymous Anónimo disse...

Vá chamar imbecil à sua mãezinha.

08 novembro, 2006 17:25  
Blogger El Ranys disse...

Ninguém chamou imbecil a ninguém. Um comentário, isso sim, foi por mim considerado um bocado imbecil. Não extravase, por favor. E deixe lá a minha mãezinha.
(porque é que respondo a isto?)

08 novembro, 2006 17:38  
Anonymous Anónimo disse...

Já percebi que aqui perco o meu tempo. Vá bardamerda, então.

08 novembro, 2006 17:58  
Blogger El Ranys disse...

Perde, perde. O seu e o meu. Vá com Deus.

08 novembro, 2006 18:04  
Blogger Harpic disse...

"Segundo o linguista José Pedro Machado (por sinal, meu tio-bisavô), «bardamerda» tem, efectivamente, origem em «vai beber da merda», que por sua vez é uma deturpação de «beber da mija« (antigamente, dizia-se também «beber da água, beber do vinho«, etc.). Esta última expressão deu origem à menos comum «bardamija»."
(tirado do Ciberduvidas da Lingua Portuguesa, Ricardo Figueira, Lyon, França)

Neste último caso poderias portanto ter respondido com um "Vá bardamija". Ficava bonito e nao ofendia!

08 novembro, 2006 18:36  
Blogger Nelson disse...

he he he. já conhecia essa do ciberdúvidas (uma vez que resolvi pesquisar "bardamerda" no google a ver o que dava; enfim, tenho muito tempo livre).

sobre o assunto em epígrafe: eh pá, ouvi uma intervenção do Nuno Melo e qualquer coisa como 10 minutos antes e depois; o cagaçal era impróprio para a solenidade da sala; e a demagogia também.

O "não se excite" do Sócrates vale pelo que é. Convém, naturalemente, contextualizar. E contextualizado está.

O cagaçal que se foi ouvindo também vale pelo que é. No fim de contas, entre senhores e senhoras, de esquerda e direita, facilmente conseguiríamos encontrar 230 pessoas para substituir aquelas que seriam:
a) mais desinteressadas a título pessoal
b) mais fiéis aos seus princípios
c) mais elegantes no discurso
d) mais coerentes nos actos.

Infelizmente, é a política que temos e estes são os políticos que temos. Bem ou mal, é com estes 230 que temos de nos desenrascar até 2009. E pior: de 2009 a 2013 teremos mais ou menos os mesmos, com umas alterações que vão mudar a forma mas não o conteúdo da AR.

Para terminar o lamento, e porque não gosto de me lamentar durante longos períodos de tempo (4 minutos por dia chega-me, felizmente, o resto é para reclamar mas sem lamúrias), a AR é apenas um espelho da população de onde é extraida. Se os portugueses são, em média, pouco interessados na qualidade do seu trabalho, pouco capazes, pouco honestos, pouco solidários, porque razão havíamos de esperar que os seus representantes, que são portugueses como os demais, fossem diferentes?

Cada sociedade tem os políticos e a política que merece. Ao menos ainda temos o contra-informação que sempre ajuda a equilibrar.

09 novembro, 2006 00:03  
Blogger El Ranys disse...

Nelson, estmos de acordo. Afinal, no post anterior escrevi:

"O problema é, creio, a falta de classe, de educação e de raciocínio da maioria dos deputados. A língua portuguesa oferece inúmeros recursos para que uma discussão se possa travar em tom cortês e civilizado. "Não se excite" é uma expressão rasca. Como rascas são a maioria dos nossos deputados e, pelo menos ao nível da linguagem, o nosso primeiro ministro. Estão bem uns para os outros."

Mas receio que os deputados e os governantes não sejam um espeho fiel da população de que são extraídos. Repara que, nas legislativas,não votas em deputados, mas sim em listas apresentadas pelos partidos.
Para integrar essas listas, as pessoas têm de fazer o tirocínio das inefáveis J's, onde formatam o seu discurso ao "padrão" vigente. E assim se perpetua a coisa, com um debate entre políticos a nível de cão. Foi o que eles aprenderam nas J's, pobres coitados.

Também por isso, defendo desde há muito os circulos uninominais, como fuga à partidocracia em que vivemos. Ganhava a representatividade, estou certo que ganhava também o discurso político.

09 novembro, 2006 14:30  
Blogger Rantas disse...

Imbecil - do latim imbecille

fraco de espírito;

parvo;

idiota;

néscio;

cobarde.

Dicionário Priberam

09 novembro, 2006 22:47  

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