terça-feira, setembro 26, 2006

Revisionismo Histórico

Cada vez mais se fazem exercícios de ficção histórica. Recentemente, foi editado um livro com 7 textos que mudavam a História (EUA continuavam uma colónia inglesa, a Alemanha tinha ganho a I Guerra Mundial, Hitler tinha ganho a Estaline, etc). Em diversos blogs (por exemplo, O Amigo do Povo), publicaram-se análises sobre o que teria acontecido de o Rei D. Carlos não tivesse sido assassinado em 1908, ou a biografia de uma personagem fictícia (aqui, aqui, aqui e aqui).
Confesso que gosto bastante deste tipo de coisas - reinventar a História, imaginar desenvolvimentos diferentes, traçar novas causalidades.
E proponho-vos um desafio - escolher quem mais tenha contribuído, pela sua acção histórica, para moldar o Mundo em que vivemos actualmente.
Na minha opinião, a personalidade que mais "desenhou" o nosso Mundo, foi Abraham Lincoln.
Poderia escolher alguém mais antigo (Cristo, Maomé, etc), mas creio que nesses casos perde-se um pouco o sentido do exercício.
Poderia eleger Lenine, mas depois da queda do muro, isso não é já tão evidente, certo?
Bom, então porquê Lincoln? Lincoln assegurou, através das suas acções, a unidade dos EUA. Decidiu partir para a Guerra Civil, contra os Estados secessionistas. Independentemente da bondade dos seus actos (fim da escravatura, direito à auto-determinação dos "sulistas"), o facto é que o século XX teria sido completamente diferente se os EUA se tivessem separado.
Supondo que o território do que são agora os EUA teriam ficado divididos em duas nações (se Lincoln não tivesse tomado a decisão de combater a tentativa de secessão), à partida teremos também de prever que não seriam as nações mais amigas do Mundo - tanto pela secessão como pelo padrão típico das alianças internacionais, que resultam num padrão em xadrez: A é vizinho de B que é vizinho de C. A e C tornam-se aliados.
O facto de os EUA não estarem unidos significa que não teriam ajudado tanto os ingleses na I Guerra Mundial, nem tinham acabado por entrar na Guerra. Ou, por outro lado, até poderiam ter entrado na Guerra mas contra um País vizinho, que seria por sua vez aliado das Potências Centrais (basicamente, aquilo que os alemães tentaram, com o famigerado telegrama Zimmerman para o México).
Acredito que este facto teria contribuído para que os Impérios Centrais (Alemanha, Austro-Húngaro, Otomano) tivessem ganho a guerra. É necessário lembrar que a derrota se deveu à exaustão completa dos recursos alemães, mas em termos militares nunca nenhum exército inimigo entrou na Alemanha. Esse foi um dos factores, aliás, que explicam a ascensão de Hitler - o sentimento de traição de quem estava nas trincheiras quando os "políticos" se renderam.
Os resultados práticos dessa guerra teriam diferenças substanciais dos que na realidade sucederam - mantendo-se os Impérios Austro-Húngaro e, sobretudo, o Império Otomano, a História teria sido completamente diferente!
Não teria existido o infame acordo Sykes-Picot, que tanta raiva anti-ocidental provocou, não teria acontecido a II Guerra Mundial (pelo menos nos moldes em que esta tomou lugar. Se tivess ocorrido uma guerra, teria sido a França a tomar a iniciativa, e a Alemanha teria tratado do assunto rapidamente - como aliás aconteceu na realidade), não teria sucedido o Holocausto. Existiriam algumas colónias que teriam passado para administração alemã em 1918, a título de compensação (inglesas, francesas, belgas, portuguesas, ...). Não teria acontecido a Guerra Colonial, nem a descolonização de 1974.
O Mundo estaria melhor ou pior?
No período em que houve 2 super-potências (EUA e URSS) existiriam 3 super-potências: URSS, Inglaterra e Alemanha. Acredito que nessas condições não tomaria lugar a União Europeia. O Império Otomano acabaria por se dividir, de forma mais ou menos sofrida. Não existiria Israel.
Inclino-me a afirmar que o Mundo estaria melhor...

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4 ComentÁrios:

Blogger Harpic disse...

Oh Rantas, tu tens aquário?

27 setembro, 2006 07:55  
Blogger Rantas disse...

Ò Ranys, olha ele!

27 setembro, 2006 11:33  
Blogger manolo disse...

É interessante mas o grande sentido da civilização ir-se-ia manter. De uma forma ou de outra, a Razão vai-se impondo. A História dos Estados Unidos da América é muito pouco conhecida por cá. Um livro (muito antigo, 1830) que me influenciou é "Da Democracia na América" de Alexis de Toqueville. Após a independência, houve um extraordinário conjunto de homens que desenharam o sistema. Na guerra civil, só o Norte podia vencer.

01 outubro, 2006 19:43  
Blogger Rantas disse...

Também concordo - existindo guerra, a vitória do Norte era inevitável. Enfim, houve alguns golpes dos Sulistas que fizeram perigar essa vitória, mas quanto mais tempo durasse a guerra, mais certa seria a vitória Nortista.

No entanto, este exercício não se baseia na vitória dos Sulistas - assenta na ausência de guerra. Estou convencido que, se Lincoln fosse contrário à guerra, esta não teria tido lugar.

É das poucas situações históricas em que uma decisão individual pode de facto pesar. E creio que essa decisão teve as repercussões que espelhei no post. Por via indirecta, as voltas que o Mundo daria - e deu...

Nota curiosa - a decisão de Lincoln é totalmente defensável, não se registando muitas polémicas sobre isso (que eu conheça, enfim). É curioso notar que, apesar da decisão ter sido bem tomada e com boas intenções, se ela não tivesse sido tomada, o Mundo estaria melhor. Que ironia...

03 outubro, 2006 00:36  

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