terça-feira, novembro 29, 2005

Soares é fixe

Nas próximas eleições presidenciais, votarei em Mário Soares.
Considero que tenho vários motivos para isso...
Memória
Mário Soares é o pai da democracia portuguesa, com todos os seus defeitos, sim, mas com todas as suas virtudes. Lutando à direita e à esquerda, com pragmatismo, sentido de missão, submetendo as tácticas a uma estratégia previamente definida - e bem definida, diga-se de passagem - definindo as metas fundamentais, que se hoje parecem evidentes, óbvias e naturais, há 30 anos não pareciam.
Ele esteve em todas as batalhas fundamentais dos últimos 50 anos - o difícil anti-fascismo, a vitoriosa consolidação da democracia, a traumatizante descolonização, a visionária adesão à CEE, o normalizador regresso dos militares aos quarteis e a inevitável devolução da política aos civis, a necessária restrição orçamental ditada pelo FMI, etc.
E tudo isto antes de ser Presidente de todos os Portugueses durante 10 anos!
Afectividade
Mário Soares sempre gerou fortes reacções emocionais e afectivas nas pessoas - amor ou ódio, alegria ou tristeza, mas nunca indiferença. Gera consensos, é um pacificador, um negociador por excelência. Une de facto os Portugueses, não é um mero slogan!
Os últimos 20 anos
Mário Soares foi Presidente durante 10 anos. Nesse período, transformou-se num símbolo vivo de Portugal, aceite, respeitado e ouvido por todo o povo português e na cena internacional. Nos últimos 10 anos, Soares continuou a agir, a intervir, a participar. Errou, falhou - sem dúvida, por vezes. Mas actuou. Foi para o Parlamento Europeu lutar onde considerou que a sua participação seria mais importante. Não se remeteu para um silêncio cómodo, de gestão dos timings políticos, não: deu a face. Virou substancialmente à esquerda, é verdade. São sinais do tempo...
O Futuro
O que pretendemos ter no futuro? Um Presidente que una os portugueses, que os ouça, que os motive, que não pretenda o poder executivo? Temos Mário Soares.
Tem-se dito que Cavaco Silva tem um perfil mais executivo, mais de primeiro-ministro. Concordo - apesar de não assinar de cruz as opiniões relativas à má prestação de Soares como primeiro-ministro: chefiou um dos governos mais dificeis que tivémos em Portugal, o tempo dos salários em atraso, das bandeiras negras. Era um tempo de consolidação orçamental, em que, pela primeira e última vez, tivémos um pacto de regime entre os dois partidos de poder: PS e PSD no chamado Bloco Central. Creio que isso demonstra a amplitude da crise...
Bom, dizia eu que Cavaco tem um perfil mais executivo, de acção. Mas ser Presidente requer mais reflexão ao invés de acção. Mais consenso ao invés de crispação. Mais afectividade ao invés de racionalismo. Mais humanismo ao invés de economicismo.
Esclareço: não estou a atribuir um peso mais positivo ao humanismo do que ao economicismo, nem o resto das características. Penso é que as primeiras qualidades que referi constituem um bom requisito para o perfil de Presidente, enquanto as segundas - que também são qualidades, atente-se - definem um bom primeiro-ministro.
Um Presidente não deve ser conflituoso. Não poderá acusar de "forças de bloqueio" quem não concorda com ele. Não pode fechar os ouvidos à sociedade, pedindo silêncio para o deixarem trabalhar. Não deve referir o "ser político" como uma coisa negativa.
Deve trabalhar pelo diálogo, pela colaboração, pela cooperação, para ajudar a atingir acordos, consensos, equilíbrios. Não deve ter medo de assumir o que é: um político, com tudo o que de mais nobre isso acarreta.
Bom, e era isso que eu tinha para dizer hoje. Saúdinha!

Etiquetas:

8 ComentÁrios:

Blogger Alex disse...

Muito bem. Concordo em quase tudo. Não concordo é que no futuro Portugal queira outra vez Mário Soares. Um Estadista tem que perceber que, uma vez cumprido o seu papel histórico deve retirar-se. Ele próprio afirmou que seria um erro tremendo um ex-Presidente voltar a candidatar-se. Seria péssimo para a Democracia. Quem não se lembra do "Basta!" ?
E porquê ? Porque o mundo de hoje já não é o mesmo de há 20 anos. Hoje, o mundo é unipolar,existe a ameaça do terrorismo, grande crise politica e económica da Europa, o desabamento do sistema social Europeu, grande conflitualidade social, etc... Não digo que Mário Soares não tenha bagagem para estas questões (talvez mais que o(s) outro(s)candidato(s)), o que digo é que para novos problemas, novos protagonistas. Já tivemos um durante 48 anos que julgava que só ele podia guiar este povo Português...
Confesso que quando Mário Soares apresentou a sua candidatura, achei que era uma atitude corajosa. Na idade dele, quando podia gozar uma reforma plena, optava por um combate de fim incerto... Mas depressa percebi que está movido pela vaidade, pela presunção, pelo medo irracional que Cavaco também seja Presidente... Está mais preocupado com o seu umbigo, com a sua rivalidade com Cavaco do que com o interesse do país. Faltou-lhe o desprendimento que faria dele uma figura ímpar do séc. XX, deixando outros fazer os seus combates...
Tenho pena. Bem me lembro da eleição de 1985, talvez a melhor campanha a que assisti. Fui Soares de 1ª volta. Hoje, precisamos de alguem mais novo, com outro discurso...

30 novembro, 2005 23:00  
Blogger Rantas disse...

Também eu fui Soares de 1ª volta, em 85 (ou 86?).
Reconheço que, para 2006, Soares não seria a minha primeira opção. Mas, na verdade, dos outros que se apresentaram ao escrutínio, não vejo melhor. Alegre? Deixem-me rir.
Façamos um exercício, então: quem seria o candidato (enfim, o não-candidato...) que cada um de nós preferiria?

Quem eu mais desejei que se candidatasse (ironicamente, já que acabámos de falar em 86) foi o Freitas. É curioso. A seguir? Talvez o Guterres. Enfim, sempre o vi como segunda escolha, para dizer a verdade. Quem mais seria?

30 novembro, 2005 23:26  
Blogger manolo disse...

Gosto mais do Soares e da vida dele que do Cavaco. Mas nem em todos os momentos o "melhor" qualificado para a função trás mais benefício. Não acredito em perigos para a Democracia criado pelo Cavaco e penso que os tempos são de mais disciplina e rigor, sinais e imagens transmitidos muito mais pelo Cavaco.

01 dezembro, 2005 21:26  
Blogger Harpic disse...

Excelente argumentacao do Rantas. Dá gosto ver eleitores assim decididos que encontram num dos candidatos grande parte das respostas para os suas anseios sobre como deve ser o novo presidente de Portugal.
Eu nao tenho essa sorte. Acho o Mario Soares anacrónico, o Cavaco um boneco de pau sem um minimo do carisma necessario para poder congregar os esforcos à volta dos 'designios nacionais', o Alegre já anda um bocado perdido no meio disto tudo logo julgo que andaria ainda mais perdido nos corredores de Belém, o Louca nao usa gravata e eu nao estou bem a ver um Presidente a andar por aí sem gravata e o Jeronimo nao conta porque o Presidente é uma pessoa e nao é um 'nós'!

02 dezembro, 2005 10:05  
Blogger El Ranys disse...

Gostaria de ver como candidatos à esquerda o Constâncio, o Vitorino, o Cravinho...
Ao centro o Freitas, por exemplo.
À direita o Adriano Moreira (vêm, não é uma questão de idade), o Miguel Cadilhe ou até, porque não, o Cavaco. Tinhamos aqui uma vasta panóplia de bons candidatos (e com certeza que me esqueci de alguns). Um combate que me deixaria satisfeito com a democracia portuguesa seria entre o Constâncio e o Adriano Moreira, talvez os melhores deste naipe.
Agora, o Soares? Outra vez? O que traz de novo? Que nova visão para a sociedade portuguesa? (o mesmo se aplica a Cavaco).
Chegam estes, Rantas?

03 dezembro, 2005 01:40  
Blogger Rantas disse...

Vitorino faz-me lembrar aqueles jogadores do Sporting que são grandes promessas, que fazem sonhar os sportinguistas, mas que nunca passam a certezas. Creio que ele perdeu definitivamente o estatuto de "reserva moral", depois das repetidas recusas em exercer cargos ou concorrer a eleições. E principalmente depois das areais movediças do caso Eurominas...
O Constâncio seria um bom candidato, sim. Talvez lhe falte um pouco de carisma, ou pelo menos daquilo que é necessário para se ser candidato a alguma coisa em Portugal: aquela predisposição para beijar peixeiras, dar dois de conversa com os passantes, distribuir sorrisos e panfletos.
Cravinho seria um candidato mediano. Julgo que ele apenas é uma referência dentro de alguns (poucos) sectores do PS - pelo que muito me surpreendi por te ver a ti a fazeres essa sugestão.
Freitas seria, como já tive a oportunidade de referir aqui algures, o meu candidato.
Quanto ao Adriano Moreira e ao Miguel Cadilhe - entendi o raciocínio. Mas eu andava à procura de alternativas à esquerda, 'tás a ver?

04 dezembro, 2005 00:59  
Blogger El Ranys disse...

'Tou a ver, 'tou!
E já tas dei. Respondi à tua pergunta, portanto.
E, para adiantar, dei-te também alternativas à direita.
Pena foi tu não teres respondido à minha pergunta: com Soares, que novas ideias para Portugal, que visão inovadora?
Não estás nem um bocadinho farto dele?

04 dezembro, 2005 03:35  
Anonymous Anónimo disse...

MORTE A TODOS VOCÊS SEUS DEMOCRATAS DE MERDA, O PAIS ESTA MAL POR VOCÊS!!!

DESEJO VOS SOFRIMENTO NA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO DEMOCRATA, ONDE AS VOSSAS FILHAS SÃO VIOLADAS POR PRETOS NA AMADORA, E OS POLITIOCS DESVIAM DINHEIRO.

HA-DE VIR O DIA EM QUE VOS IREI VER TODOS NUMA COMERA DE GÁS!!!

12 fevereiro, 2008 23:03  

Enviar um comentário

<< Home