segunda-feira, novembro 28, 2005

Os otários somos nós

Caro Rantas,

Há 30 anos que se andam a estudar alternativas à Portela. Os técnicos sabem que a capacidade do aeroporto estará esgotada a curto prazo.

Decerto, as pessoas que "perderam" tempo com estes estudos, entre políticos e técnicos, não o fizeram só por diversão.

Apesar de não ser um "técnico especializado", concederás que devo conhecer, melhor do que a maioria dos mortais, as limitações operacionais do actual aeroporto. É, aliás, por causa delas, que se têm feito - e terão que se continuar a fazer - inúmeras obras na Portela, até à entrada em funcionamento de um novo aeroporto internacional. Só para garantir uma operacionalidade mínima e capacidade de resposta ao actual crescimento do número de passageiros.

Assim, se assumires que quem diz que é necessário um novo aeroporto o faz com competência (e não por uma qualquer cabala que nem consigo imaginar), vamos ao ponto seguinte.

Como disse no meu post anterior, o problema, para mim, é que ao fim de 30 anos de estudos o melhor que têm (os técnicos, os politicos) para nos dar é um aeroporto que não permite a construção de mais de duas pistas e estará, também ele, esgotado passados 30 anos de entrar em funcionamento. Ou seja, daqui a 30 e tal anos, se ainda por cá andarmos, poderemos estar outra vez a discutir estas questões. Isso, para mim, é que é grave.

Caramba, não haverá nenhuma localização que permita arrancar com duas pistas, depois mais uma, e outra, e por aí fora, sempre que seja necessário aumentar a capacidade? Barajas, em Madrid, já vai para a quinta pista.

Quanto ao TGV, toda - ou quase - a Europa já está ligada em alta velocidade. Portugal vai ficar de fora? Na via férrea temos, aliás, um grave problema, que se chama "bitola ibérica". Os rodados dos nossos comboios são iguais aos espanhóis e diferentes do resto da Europa. (O AVE espanhol já resolveu esta questão para os "nuestros hermanos"). É um problema que devemos resolver, uma ligação em bitola europeia, pelo menos entre Lisboa e Madrid e daí para o resto do continente, e com ramal em Sines, para que este possa ser o grande porto da Europa.

Estes são os investimentos necessários. Que devem ser feitos. Não há, na minha opinião, volta a dar-lhe. Mas, como são muito elevados, têm de ser BEM FEITOS. E o problema é que a Ota não cumpre os requisitos. Recordo-te: ao fim de 30 anos, estará, também ela, esgotada. Há-de se arranjar melhor, não?

12 ComentÁrios:

Blogger Rantas disse...

Talvez me tenha feito entender mal.
Eu não questiono se a Portela está esgotada ou não. Isso de facto é uma questão técnica.
O que eu coloco é que a decisão de investir não é uma questão técnica, é uma questão sobretudo política - tanto sobre a modalidade do investimento, como sobre a localização, a oportunidade e também a questão do prazo de 30 anos que referes.

Estamos de acordo, pá.

Sendo uma decisão política, tem de se investir na sua explicação. Trata-se de um investimento demasiado importante para que restem dúvidas sobre a sua bondade.

Já quanto ao TGV, concordo com a ligação. A Lisboa. A última notícia que li sobre esse assunto deixou-me apavorado: era algo como "TGV Lisboa-Porto com paragens em Leiria, Coimbra e Aveiro". E Alfarelos já agora, porque não?

28 novembro, 2005 12:31  
Blogger Rantas disse...

Há um outro ponto sobre o qual - infelizmente - coincidimos na opinião: os otários, indubitavelmente, somos nós...

28 novembro, 2005 12:32  
Blogger Alex disse...

Primeiro, não percebo porque é que em vez de a discussão ser feita em comments, fazem posts atrás de posts sobre o mesmo assunto.
Mas parece que há um consenso em relação ao Aeoroporto da Portela estar esgotado.
A solução OTA é que não é consensual. Eu também não defendo a OTA. Não tenho conhecimentos para estar a favor ou contra. Mas o que quero é uma solução. Evidentemente que não quero uma má solução. Mas qual é a boa solução ? Essa é que é essa!
Caro El Ranys qual é a boa solução ? Rio Frio ? Há com certeza argumentos contra. Eu li o MST no Público sexta-feira, e embora percebendo que é muito dinheiro, não encontro nenhuma alternativa...
Para quem não leu, aconselho o pequeno artigo de Nicolau Santos no Expresso, "Um exercício de cidadania".
Saúdinha

28 novembro, 2005 19:37  
Anonymous lam75 disse...

não me alongo muito a discutir o novo aeroporto, porque tenho de reconhecer que portela não é solução; mas permitam-me discordar do tgv... meus caros, já ouviram falar do pendular? é um comboio que faz a ligação lx - porto e que chega pelo menos aos 220 km e só é pena que não o faça (ainda) em todo o trajecto

investir milhões de euros para um ganho por viagem que pode ser inferior a 30 minutos parece-me demasiado; tanto mais que a viagem de avião continuará a ser mais rápida e, provavelmente, mais barata

o tgv quanto muito poderia ser uma hipótese para a ligação lx - madrid

28 novembro, 2005 22:46  
Blogger El Ranys disse...

Caro Lam75,
Foi precisamente isso que tanto eu como, creio, o Rantas, defendemos.
Lisboa-Madrid. Eu acrescentei o ramal a Sines.
Parece que andamos todos de acordo.

28 novembro, 2005 22:54  
Blogger Rantas disse...

Ponto de situação:
Nós por aqui, aparentemente, concordamos em:
1 - Tem de se arranjar uma solução alternativa para o Aeroporto da Portela.
1a - Se a solução é substituta ou complementar, não chegámos a analisar.
2 - Se a solução passa pela Ota, necessariamente? Não chegámos a uma conclusão definitiva.
2a - Penso que existe um certo desconforto sobre a falta de transparência dessa decisão.
3 - Sim ao TGV no percurso Lisboa-Madrid, com um eventual ramal para Sines. Nunca um Intercidades com 3 paragens entre Lisboa e Porto. Para esse percurso, dever-se-ia apostar no pendular.
3a - Aparentemente há muitas pressões políticas para o desenho da linha do TGV, sobrepondo-se os interesses de algumas regiões aos interesses nacionais.

Onde todos concordamos de certeza é que isto é demasiado importante para nos dar ao luxo de errar.

Alex, os posts são mais giros que os comments porque levam fotos :o)

28 novembro, 2005 23:22  
Blogger El Ranys disse...

Alex,
A única regra, aqui, é "no rules, great scotch".
Discutimos em post quando sim, em comentário quando também!
É como o Natal.
Saúdinha...

29 novembro, 2005 00:20  
Blogger El Ranys disse...

Já agora, esclarecer o seguinte:
1. para mim, a solução não pode ser complementar. Construindo-se um novo aeroporto, para que este seja rentável, a Portela tem que ir à vida.
2. A solução não deve passar pela Ota. Já expliquei porquê. Aeroporto novo para só durar 30 anos (no máximo) não.
3. Solução alternativa à Ota? - Não sei. Não sou eu que ando a estudar esta história há mais de trinta anos. Mas garanto-te que, se fosse primeiro-ministro, dizia aos "consultores": "não vou investir 3 mil milhões de euros para uma solução que só tem 30 anos de vida. Vasculhem toda a região de Lisboa e descubram alternativas. E depressa, que temos que arrancar com obras..."

29 novembro, 2005 00:38  
Blogger Harpic disse...

Já agora também vou mandar uns ‘bitatos’: (um bocado longo mas cá vai na mesma)

Que a Portela vai saturar é inquestionável. Como o é em relação a cerca de outros 20 aeroportos na Europa que estarão saturados por volta de 2015-2020. E no entanto, os únicos aeroportos que estão mais ou menos já programados são Berlin, Paris e… Lisboa. A aviação Europeia prepara-se para sofrer a maior reestruturação da sua história, com a adopção do projecto do European Single Sky, e ninguém arrisca previsões do impacto desta iniciativa. Parece no entanto consensual que muita coisa vai mudar! Penso que muita gente está a adiar qualquer decisão até ver o que ‘isto’ vai dar.

Além disso não chega que dizer que o aeroporto vai saturar para se tomar a decisão de construir um novo aeroporto!
Não estou a dizer que não se deva construir um novo aeroporto! Só estou a dizer que há que fundamentar bem a decisão para se avançar na direcção mais correcta.

Para mim há algumas questões essenciais:

Estratégia: Qual é a estratégia que se quer para o novo aeroporto? A única que ouvi até agora é que é preciso evitar que nos tornemos uma zona satélite da Espanha…..ou lá o que isto quer dizer?!
O que se quer para o novo aeroporto: um grande aeroporto que possa servir de placa giratória para as Américas? Difícil de concretizar mas não impossível! Entraria em competição directa com Madrid mas com uma boa articulação com o desenvolvimento do porto de Sines também teríamos decerto alguns argumentos para pegar numa fatia do mercado (penso que esta é uma ideia do Cravinho) ; queremos um grande aeroporto que sirva de hub para a expansão da TAP e reforçá-la como uma das boas imagens de marca do País ? Sim, mas qual é o futuro da TAP? Privatizacao? Subalternizar-se numa fusão com a Ibéria ou assumir um papel principal num segundo grande grupo da Península Ibérica (Tap,Portugália, Sata, Spanair….)?; Ou quer-se antes um aeroporto que sirva de pólo de desenvolvimento para uma determinada região? Há teóricos que dizem que no futuro se vai viajar de graça e que os custos operacionais deverão ser pagos pelas concessões dos aeroportos (parking, centros comerciais, transportes,etc..) e serviços a bordo! Ou seja um centro comercial com aeroporto em vez de um aeroporto como centro comercial!
Enfim, como se torna obrigatório referir quando se fala deste assunto, eu não sou técnico mas parece-me que falta um bocado de argumentação estratégica nesta discussão. Ah! E já agora se calhar também não é preciso construir o mábonito, málindo e mámoderno aeroporto da Europa….é que se calhar com uma coisita mais pequena já se resolviam muitos problemas! É que já temos estádios e centros culturais suficientes às moscas… não precisamos também de um aeroporto às moscas!

Operacoes: Mas alguém me explica porque carga d’água se tem de desmantelar o aeroporto da Portela? Muito sinceramente ainda não ouvi nenhuma explicação, nem convincente nem sem ser convincente!
É preciso referir que quando se fala de saturação está-se a falar de saturação nas ‘peak hours’. Penso que a Portela deverá ter algo como três ou quatro horas em que pode atingir a saturação (hoje Heathrow tem cerca de 12 horas já saturadas). Não é nenhum crime ter o aeroporto saturado nem os aviões vão começar a cair por causa disso! Além disso há muitas medidas que se podem tentar para reduzir esta pressão.
Ter um aeroporto dentro da cidade traz vantagens competitivas que se devem tentar manter a todo o custo (o aeroporto da Portela dá-me um jeito do caracas!). Por exemplo, nos próximos anos prevê-se uma explosão no crescimento do segmento dos “business jets”. Se isto pode servir de argumento para sustentar a criação de novos aeroportos (devido ao aumento do numero de voos) também o é para sustentar a manutenção de pequenos aeroportos, muito próximos das grandes cidades. A ideia dos business jets é precisamente evitar as operações tipo hub e usar antes operações em point-to-point sem perdas de tempo nem com trânsitos nem com ter de apanhar comboios depois dos voos!

Investimento: Se o novo aeroporto é um negócio tão apetecível para os privados, privatizem primeiro a ANA e deixem-na depois liderar o processo de escolha do local e do tipo de aeroporto que se deve construir. Assim estaríamos certos que a decisão se moverá por factores comerciais e não por pressões de lobbies ou amiginhos!

Estudos: Atão mas a escolha do local faz-se por eliminação de um grupo de possíveis locais que foram seleccionados há 40 anos! O qué isto?
A argumentação tem sido baseada em previsões feitas em 1997 (e ainda por cima feitas pela IATA!!!). Previsões de tráfego aéreo feitas antes do 9/11 tem necessariamente de ser corrigidas para levar em linha de conta a desacelaracao entre 2001 e 2004 (só este ano se atingiram os níveis de tráfego pré 9/11)
Há que explicar melhor porque havendo dois estudos, um da ADP que indica que a Portela não poderá de forma nenhuma suportar mais de 14m pax/ano e um da BAA que indica que com algumas alterações a Portela poderia ir até aos 20m pax/ano (sem construcao da nova pista), o governo pegou no da ADP e menosprezou completamente o da BAA (que é só a empresa de gestão de aeroportos mais rentável da Europa)? Acho que falta uma explicacao!

Bom! Chega!
Abraços, ou como se diz aí, saudinha!

02 dezembro, 2005 09:41  
Blogger El Ranys disse...

Caro Harpic,

Quem sabe, sabe, e nós sabemos que tu sabes. Apresentas algumas linhas de reflexão importantes para esta discussão. Vamos a isso.

Estratégia - é precisamente essa: fazer do novo aeroporto um grande hub da TAP (que já é, hoje em dia, a maior transportadora áerea no Atlântico Sul). Isto deve, obviamente, ser feito em articulação com o porto de Sines (já aqui o escrevi). O futuro da TAP - e isto já devias ter percebido - já está a ser escrito. A TAP é membro da Star Alliance, e é a grande aposta desta aliança par o Atlântico Sul e África Austral. Por outro lado, a TAP lidera uma mega-operação para passar a controlar a Varig, tornando-se, caso corra bem, num dos principais players internacionais do sector. E ninguém quer o maior, mai' bonito aeroporto da Europa. Eu, pessoalmente, gostava de ver planeado um aeroporto funcional e com possibilidades de expansão no futuro. Não será esse o caso da Ota.

Operações - desde logo, esta referência: mais do que a Portela, os "business jets" utilizam já, hoje em dia, a pista de Tires. Que vai continuar a existir. Depois, não será viável manter dois aeroportos em operação, sob risco de serem os dois inviáveis. Para que um novo aeroporto internacional seja rentável, é lá que se devem concentrar todas as operações, com o consequente e inevitável encerramento da Portela.

Estudos: mesmo com a conversão da base do Figo Maduro à utilização civil, dificilmente a Portela poderá responder eficazmente a 20 milhões pax/ano (neste momento, já não responde eficazmente a cerca de 12 milhões pax/ano). De qualquer modo, mesmo que isso fosse possível, recordo-te mais uma vez que a TAP, só nos últimos 4 anos, cresceu, em nº de pax transportados, ceca de 40%. Não estamos a falar de previsões gerais da IATA nem no aumento médio do número de passageiros na Europa. Estamos a falar do caso concreto portugês, em que o crescimento do mercado está a superar, largamente, o crescimento médio europeu. Assim, aeroporto novo sim, Ota não. Porque, quando falas de estudos e do processo de "eliminação" das hipóteses que foram levantadas há cerca de 40 anos, falas muito bem. E porque a OTA não é uma solução com futuro. Seria muito mau para o país estarmos, daqui a cerca de 30 anos, a discutir esta questão de novo. Mas, se calhar, razão tem aqui um colega de trabalho, que acha que daqui a trinta anos não se vai colocar nenhum problema, porque nessa altura os aviões vão levantar e aterrar verticalmente...

Ufffff.
Um grande bem-haja

02 dezembro, 2005 10:56  
Blogger Harpic disse...

Olha oh Ranys eu sou muito teu amigo mas, nao é só por tu dizeres que eu vou convercer-me que nao podem existir dois aeroportos em Lisboa....!

Eu nao digo que sim nem que nao, mas há é que explicar bem as coisas.

Acho é que antes de qualquer decisao sobre este assunto falta primeiro definir um estratégia global (ou entao se ela existe, mostra-la) tanto para o sector da aviacao em particular (TAP/ANA/NAV)como para o dos transportes intermodal (ou lá oque é) em geral.

02 dezembro, 2005 16:12  
Blogger El Ranys disse...

Harpic, amigo:
Fazes mal. Se eu te digo...

Agora a sério: a incompatibilidade entre um novo aeroporto internacional e a manutenção da Portela em funcionamento, por tornar inviáveis as duas infra-estruturas, não é um fcato que me tenha saído da cabeça agora. Isto é, não sou eu que o digo: são os tais estudos, os tais especialistas.
A possibilidade de Portela + 1 (Montijo ou Alverca) para as Low Cost, é um adiar do problema. A Portela já não é operacional. ponto. Não sou eu que o digo. São todas as pessoas que conheço que trabalham nos transportes aéreos (podes não saber, mas também estou um bocado por dentro do assunto).

Mas estamos em acordo (nem nunca disse nada diferente) no essencial:
é fundamental definir uma estratégia para os transportes e logística nacional. Agora, é preciso também alguma urgência no início das obras de um novo aeroporto. Que não na Ota.
Lê os meus posts e comentários com mais atenção, se tiveres paciência, e vais ver que está lá isto tudo, melhor explicado e com mais pormenores.

02 dezembro, 2005 17:17  

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