domingo, maio 21, 2006

Constança...

No Público da última sexta-feira, Constança Cunha e Sá vitupera os leitores de "O Código da Vinci". Depois de ler a sua coluna, fiquei na dúvida se Constança está irritada com a ignorância que grassa por aí ou apenas pelo facto de terem sido vendidos 40 milhões de livros. 40.000.000, sim, repito, para não haver dúvidas - 40.000.000 é muita gente estúpida, convenhamos.
E que diz a nossa Constança, que partilha com Vasco Pulido Valente a qualidade de ser omnisciente, que tudo vê, tudo conhece e tudo critica e apouca? Diz, essencialmente, que [sic] «a "verosimilhança" que grande parte dos leitores encontrou no livro [...], para além de mostrar o grau de estupidificação e de superficialidade a que se chegou, entre nós, confirma uma confrangedora ignorância sobre o cristianismo e as suas origens. [...] Qualquer ser razoável [...] desconfiaria imediatamente de um enredo onde o priorado de Sião é dado como um facto [...], o Opus Dei tem ao seu serviço "monges" albinos capazes dos piores assassinos [...]».
Ò Constança, sinceramente! Nunca a pensei capaz de abordar esse romance de uma forma tão literal, tão... estúpida? Confesso que gostei do livro. E achei-o verosímil. Agora, se acredito nessas patranhas? Claro que não, porra! Dan Brown escreveu um romance e ... romanceou! Foi buscar umas patranhas inventadas por outros para o seu livro - seja o Priorado de Sião, seja a ascendência da dinastia merovíngia, sejam outras.
Do que eu gostei - algumas interpretações de obras de arte, que considerei interessantes, e o ritmo (alucinante) da obra. O que julguei verosímil foi o aspecto da vida pessoal de Jesus. Além do aspecto incontroverso da virgindade de Maria (isso é que é verosímil?!), associado ao facto de Jesus ter tido pelo menos um irmão - e não há registo de a pomba ter voltado a arreliar a senhora - irmão esse que a Igreja justamente ignorou, há outro aspecto interessante: Jesus foi celibatário, mas terá morrido virgem? É verosímil, isso? E não terá tido uma relação mais estreita com uma mulher - fosse ela Maria Madalena (hipótese de facto pouco provável) ou outra qualquer? E não faz sentido que, depois da morte de Jesus, os seus seguidores tenham prosseguido caminhos distintos, separando-se em facções irreconciliáveis, sendo uma dessas linhas liderada pela ex-companheira de Jesus? Não estou a dizer que isso sucedeu - nem Dan Brown tampouco o afirmou - mas não é isso verosímil?
O que me parece arrepiante em muitas das críticas ao livro de Dan Brown - e aos seus leitores - é a assumpção de que quem leu acreditou em tudo o que lá está escrito, quando nem Dan Brown escreveu aquilo como factos históricos nem os leitores confundem as coisas de forma tão aberrante. É no mínimo pouco inteligente - para não dizer muita estúpido - afirmar que os leitores acreditaram nessas coisas. Porque essas coisas são acessórias. O que é fundamental, no livro, o que é inovador, é Dan Brown ter lançado um best-seller sobre estes assuntos habitualmente tão enfadonhos. E é isso que custa engolir - 40.000.000 de vezes!

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6 ComentÁrios:

Blogger A.Teixeira disse...

Confesso que não tive paciência para ler a crónica da Constança no Público, mas agora estou arrependido.

Este magnífico post merecia-o!

Parabéns.

22 maio, 2006 10:51  
Anonymous Diego disse...

Sou catolico, e tenhu conhecimento a biblia, nunca li na biblia q Jesus teve caso com Maria madalena, nem que Maria teve outro filho, no entando caso um dia lah no vaticano onde o papa bento mora, se quer achar alguma escrita que prove issu, (mas desde quando seje aprovado pela religiao catolica,pq eh nela q eu acredito e sigo, principalmente pq ela acata td que na biblia esta) ai sim poderia para e pensar se issu nao poderia ser verdade, mais nao mudara em nd, Maria nao deixara de ser minha Mae e Jesus nao deixara de ter importancia pra mim por causa que teve caso com Madalena ou alguma outra mulher, ele morreu por mim e a ele devo minha vida e minha fe, e a Maria nada me resta a agradecer por ter me dado o HOmem que me salvo da escuridao e me deu a ressureiçao.
OBS: antes de vc acredita entao que filme fala, ou qualquer outra coisa, procure ler a biblia, pq ela sim fala a verdade.

22 maio, 2006 21:29  
Blogger imagenário disse...

Sinceramente já estou um bocado farto destes pseudo-intelectuais com a mania que a opinião deles está acima da de todos os outros e que quem não pensa como eles é burro, estúpido ou atrasado mental. O livro é um bom livro, bom entretenimento, não será certamente uma obra prima da literatura universal mas também não é isso certamente que o autor pretende. E é uma obra de ficção... FICÇÃO! O que é que custa a entender?
Gostei do teu post. Ainda bem que vivemos em democracia e não somos obrigados a pensar do mesmo modo que a Dra. Constança.

24 maio, 2006 00:35  
Blogger manolo disse...

Jorge Leitão Barros, (ou F.F.)no Expresso, relativamente ao filme: "... é um estrondoso monumento à imbecilidade, um desastre absoluto.". Gostei do ambiente do livro e o filme retrata-o bem. Serei um imbecil??

26 maio, 2006 18:16  
Blogger Rantas disse...

Ao A.Teixeira e ao Imagenário, os meus agradecimentos pelas palavras de incentivo.

Ao Manolo - a imbecilidade não é uma das tuas características, está descansado. A imbecilidade aparentemente está do lado dos "intelectuais" sérios que fazem uma leitura estapafúrdia e literal de um romance de ficção, e que apontam o dedo a quem leu o romance como se fosse... um romance?!

27 maio, 2006 21:02  
Blogger Rantas disse...

Uma menção especial ao Diego, pela sua coragem em assumir aquilo eu considero uma atitude medieval e acrítica ("mas desde quando seje aprovado pela religiao catolica,pq eh nela q eu acredito e sigo, principalmente pq ela acata td que na biblia esta").
Para si, caro Diego, creio que estará reservado o Reino dos Céus. Um bem-haja pela sua participação. Para a próxima, pedir-lhe-ia que trouxesse a sua opinião, se esse conceito não lhe fosse tão estranho. Sabe, ter uma opinião própria? Uma coisa assim como pensar pela própria cabeça? Experimente um dia, pode ser que aprecie a experiência. Lembre-se que há milhares de anos as coisas eram diferentes - não existiam ainda canais evangélicos, nem telefones havia sequer para o Jogo da Mala! - e não era suposto fazer leituras estritamente "literais". Entendeu?

27 maio, 2006 21:11  

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