quarta-feira, dezembro 14, 2005

Crítica de cinema

Há uns anos atrás, ver cinema português poderia transformar-se num suplício longo e entediante. Filmes de intelectuais para intelectuais, era raro o filme que tinha público.
O "Branca de Neve", de João César Monteiro, foi o corolário desse percurso: filme brilhante, inovador, pioneiro, primeiro filme para cegos, primeiro filme radiofónico, insulto autista e pesporrente de um doido varrido, desperdício de dinheiros públicos, ouviu-se de tudo. Que havia de ser uma seca, lá isso... e foi inesperado, até por vir de quem veio: "As Recordações da Casa Amarela", do mesmo autor, continuam a trazer-me boas recordações.
Já nos últimos anos, e especialmente por iniciativa da SIC, o cinema português popularizou-se. Tanto no sentido de ir ao encontro do público, com filmes com alguma qualidade, como no sentido mais pejorativo da expressão - filmes popularuchos, de fraca qualidade, a desafiarem os mais baixos instintos do grande público.
Este "O Crime do Padre Amaro" alinha nesta última categoria. Um padre novo no Casal Ventoso, que aluga um quarto ao lado da Soraia Chaves. Não é preciso grande imaginação para visualizar o resto do argumento, pois não?
Dois modelos transvestidos de actores (Soraia Chaves, que terá uma grande carreira cinematográfica enquanto continuar a encontrar estilistas que desenhem decotes à escala dela, e Jorge Corrula).
As interpretações deles nem são más de todo. Ela é de facto muito provocante (mas não sai desse registo), ele tem um pouco mais de jeito.
À volta destes dois o que se vê? Filme cheio de estereótipos, de lugares-comum (será que ninguém consegue fazer uns diálogos um pouco menos chatos?!), sem novidades, sem imprevistos. Até a tão badalada pedofilia não podia faltar. A grande surpresa é quando dois membros de gangue se põem a discutir à desgarrada, em verso. Essa cena pode resultar numa repentina vontade de chorar, ou em interrogações teleológicas mais profundas (porque vim? porque estou aqui? porque não saio do raio desta sala?).
Bom, eu não saí e aguentei-me valentemente firme e hirto apenas porque foi a terceira vez, nos últimos 18 meses, que fui ao cinema. Bem sei que é um fraco argumento para ficar (ainda mais porque o meu Sporting supostamente estaria a cilindrar o Estrela da Amadora enquanto eu estava enfiado naquela sala escura a deitar contas à vida), mas promessas conjugais feitas de forma condicionada e inconsciente contribuiram para a minha perdição. Se bem que, pensando bem nesse aspecto, o filme até cumpriu a sua função: levar-me, como espectador, para um mundo onírico, em que Liedson fazia um hat-trick, Deivid ajudava, Moutinho completava.
Do que gostei: Pedro Granger está bem. Ana Bustorff também - enfim, ela está sempre bem...
Do que gostei mais: Nuno Melo (mais conhecido como o gajo que foi capado aí numa novela, há uns anos atrás). Tem momentos muito bons. Para lá disso, diz a deixa em que andei a pensar durante quase o filme todo: "Foda-se!". Não se pense, contudo, que é um "foda-se" envergonhado, a pedir licença. Não!, é um "foda-se!" de encher a boca, à séria, convincente, displicente como um bom "foda-se" tem de ser! Como eu não via no cinema desde um outro "foda-se" memorável, bem enrolado, demorado, de Vítor Norte, em "Lena", um filmezeco meio obscuro galaico-português, de 2001, ou por aí - e bastante melhor que este "Crime", por sinal.

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4 ComentÁrios:

Blogger Alex disse...

Era um filme que pensava ver...
Já não vou.
Saúdinha

14 dezembro, 2005 22:44  
Blogger El Ranys disse...

Pois eu garanto que nunca pensei ir ver. O filme, claro. Já a Soaraia Chaves é digna de ser vista.

15 dezembro, 2005 03:34  
Blogger Dever Devamos disse...

Tive a oportunidade de ver o filme: é mau de mais, embora a Soraia me pareça sem dúvida uma excelente "actriz".

15 dezembro, 2005 20:55  
Blogger Bulhão Pato disse...

Lindoooooo! Fartei-me de rir com a descrição.
E asseguro que, no estádio, também eu desejei ardentemente estar noutro lado.

20 dezembro, 2005 10:23  

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