segunda-feira, janeiro 23, 2006

Bandeiras



Um dos aspectos que deve ser analisado no rescaldo destas eleições é o da actual falta de "bandeiras" políticas fora do "centrão". O "anti-fascismo" e, do outro lado, o "fascismo", entraram definitivamente para o espólio museológico da democracia. Esta é uma grande vitória dos portugueses.

Penso, aliás, que esta seria uma óptima ocasião para se proceder ao rearranjo do estapafúrdio espectro político-partidário português. Para quem ainda não entendeu, a vitória de Cavaco Silva resulta, no essencial, dos mesmos votos flutuantes que deram a maioria a José Sócrates. E o que querem estes "eleitores flutuantes"?

- Que "o trabalho seja feito" - Que se reforme, decididamente, o Estado. Que o seu peso na economia diminua. Que se dê cada vez menos espaço aos compadrios, corporativismos e negociatas. Que nos tirem desta estagnação, triste e sem esperança. Quem votou Cavaco foi quem ainda tem uma última esperança de que Portugal, sem tergiversações, pode ser um País viável. Quem olha para o futuro, mais do que para o passado.

Esta é também, curiosamente, a mesma "população eleitoral" que votou em Alegre. Aquela que está farta da arrogância, autismo e exclusividade dos partidos, de quem acha que a sociedade civil é mais pujante do que aquilo que lhe reconhecem, de quem rejeita "donos" do País e da política. De quem acha que PS e PSD, o tal bloco central, são iguais. Alegre, na óptica dos eleitores, é instrumental, servindo de recado a TODOS os partidos. Os portugueses que decidem eleições já não votam nestes partidos, que são uma espécie de "albergues espanhóis". Ouvem as propostas e escolhem a que melhor lhes serve. É uma prova de maturidade.

Claro está que, para muitos analistas, a votação em Alegre é a votação dos descontentes com Sócrates: não é. Esses, na sua maioria, votaram Soares. Sócrates, as políticas de Sócrates, o PS de Sócrates, não se revêm em Soares. Com a rejeição de Soares (mesmo através de uma votação mais expressiva em Alegre) o eleitorado dá força ao Governo, abrindo-lhe caminho a reformas mais profundas.

A actual maioria no governo e na presidência é uma e a mesma maioria. É uma maioria de "centro-ainda-estatizante", não obstante o governo de Sócrates ser, talvez, aquele que está a por em curso as políticas que mais combatem a "estado-dependência" instalada em Portugal desde bem antes do 25 de Abril. Sócrates e Cavaco são gémeos políticos e aliados. Podem, os dois, fazer parte de um mesmo partido, que agrupe a ala direita do PS e a ala esquerda do PSD. Eles são os lídimos representantes desse centro amalgamado. Como tal, não agradam nem aos "puros" de esquerda, nem aos liberais de direita.

A direita mais liberal na economia e conservadora nos costumes não se revê neste "centrão". A soma do PP com a ala direitista e liberal do PSD são um outro partido.

A ala esquerda do PS (Alegre e... Soares) podem agrupar-se num outro partido, que engole o BE e vai, paulatinamente, comendo o PCP. Esquerda estatizante e anti-globalizante, seja lá o que isso for. Talvez esta seja uma injustiça histórica para Soares, inclui-lo neste grupo, mas este Soares LBV permite essa injustiça.

Esta é a arrumação partidária que urge fazer em Portugal. Para, quando formos chamados às urnas, podermos saber o que estamos, de facto, a escolher. Para que a culpa não morra solteira. Para que tudo faça mais sentido. Ainda que ganhe o"centrão", as suas políticas serão alinhadas mais à direita ou mais à esquerda, de acordo com os compromissos post-eleitorais necessários para a governabilidade. Aliás, a tendência, nesse caso, será para o esvaziamento progressivo do "centrão", coisa que não é carne nem é peixe, é mais do género alforreca ou, como diria o outro, "pura gelatina política".

9 ComentÁrios:

Anonymous Anónimo disse...

LBV?

23 janeiro, 2006 14:27  
Blogger El Ranys disse...

Late Bottled Vintage, como o vinho do Porto...
Quer isto dizer, este Mário Soares mais recente e as suas bandeiras, que convergem com as do BE
(Bloco de Esquerda...)

23 janeiro, 2006 14:32  
Blogger Alex disse...

Concordo no geral que as politicas, os partidos e os eleitores revêm-se todos numa espécie de União Nacional. Mas a verdade é que não há alternativa a esta politica. Reformar a Justiça, Equilibrar as Finanças públicas, Combater a fraude e evasão fiscal investir na Educação e I&D, reformar a Administração Pública... Não há alternativa. Os partidos de "esquerda" defendem o aumento das pensões de reforma, o aumento do salário minimo nacional pois sabem que não vão governar. Hoje, ao integrarmos a União Europeia e o Euro não temos hipóteses de fugir a esta politica. Aliás, toda a Europa tem esta politica ! A Direira mais liberal o que pode querer ? Mais privatizações e menos impostos. Mas é o que querem todos os partidos ! É o que tem que ser feito. O que hoje pode diferenciar os partidos são as preocupações sociais com os idosos, doentes, minorias. São os problemas das mulheres, das crianças, da familia. É em pormenores que temos que fazer distinções. É ficarmos revoltados quando no último relatório já estamos atrás da Rep. Checa e passámos assim para último da União. Assim, e concordando contigo, acho que deveria haver uma nova ordenação dos partidos, movimentos, alternativas...chame-se o que se quiser mas estes partidos estão velhos, como demonstraram estas eleições presidenciais.
Saúdinha

24 janeiro, 2006 22:36  
Blogger Harpic disse...

Estas a ver que afinal tu e o Joao Miranda sempre tem algo em comum...

E olha que acusa-lo de 'plágio' é uma verdadeira 'blasfémia'!

27 janeiro, 2006 07:59  
Blogger El Ranys disse...

Oh meu caro Harpic,

Eu não acusei o João Miranda de plágio. Simplesmente quis notar que o que ele escreveu, num tom completamente diferente, mais jocoso, corresponde, mais ao menos, à nova arrumação partidária que aqui, mais a sério, eu sugeri.

Cronologicamente - e isto é um dado objectivo - a posta do João Miranda é escrita um dia depois de eu ter postado isto. Se ele veio aqui ler e nisto se inspirou é que já é outra questão. Seria pretensão muito grande da minha parte estar a dizer que o fez. Mas lá que é uma grande coincidência, lá isso é.
Agora, plágio não é com certeza. Será, quanto muito, inspiração.

E como, no "Blasfémias", um blog que se arroga e auto-intitula "de referência", têm a mania de que são (maxime o Luis Rainha) os paladinos da originalidade e, quando não, da verdade, dei conta dessa coincidência. Basicamente, é isto: a ideia do João Miranda não é original. Um dia antes, ela estava, no essencial, postada no Revisão da Matéria. Plágio é outra coisa, é "copy-paste". Isso, de facto, não aconteceu.

27 janeiro, 2006 11:20  
Blogger Harpic disse...

A referencia ao plagio foi-me iduzida pelo teu grito pelo Luis Rainha (que depois das historias com a Semiramis e com a JAD se tornou o guardiao do copy-paste da blogosfera).

De qualquer forma nao deixa de ser curiosa a semelhanca entre as duas analises (embora, como dizes, em tons diferentes).

27 janeiro, 2006 14:48  
Anonymous Anónimo disse...

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19 julho, 2006 21:29  
Anonymous Anónimo disse...

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19 julho, 2006 21:29  
Anonymous Anónimo disse...

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19 julho, 2006 21:29  

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